
Existe um tipo de decepção bastante específico no mundo das transações. O empresário chega a uma negociação com anos de resultados consistentes, uma operação que funciona, uma base de clientes fiel, e recebe uma oferta que não reflete nada disso. Ou recebe condições que travam a estrutura do deal. Ou descobre, tarde demais, que o processo de due diligence expôs fragilidades que ele nem sabia que eram fragilidades.
O que derrubou o valor não foi o EBITDA. Foi o que estava ao redor dele.
Na hora de precificar uma empresa, avaliadores experientes, fundos e compradores estratégicos se atentam a muito mais do que ela produz. Eles se baseiam pelo que conseguem enxergar, verificar e confiar. Quando essas três coisas não estão disponíveis, o desconto aparece e pode ser bem expressivo.
O fundador conhece a empresa melhor do que qualquer pessoa. Sabe onde estão os riscos reais, quais clientes são estratégicos, quem sustenta a operação nos momentos críticos, quais decisões foram tomadas e por quê. E, ainda que esse conhecimento é genuíno e foi construído ao longo de anos, ele predominantemente existe na cabeça de quem opera.
Quando um investidor ou comprador entra em cena, ele precisa construir uma tese sobre o futuro daquele negócio sem ter acesso a esse repertório. E o que ele encontra na prática são informações financeiras parcialmente organizadas, processos que dependem de pessoas específicas para funcionar e uma estrutura de decisão que só faz sentido para quem está dentro. Diante dessa opacidade, ele tem duas opções: descontar o risco no preço ou recuar.
Essa assimetria de informação entre as partes corrói valor percebido de empresas que, pelos números, mereceriam avaliações superiores.
Há uma diferença relevante entre uma empresa que opera bem e uma empresa que opera bem porque determinadas pessoas estão presentes. No segundo caso, o que parece um ponto forte é lido como fragilidade. A pergunta implícita é sempre a mesma: o que acontece com essa empresa se essas pessoas saírem?
Se a resposta exigir mais de dois minutos de raciocínio, o risco já foi identificado. E risco identificado aparece no valuation.
Um valuation sem descontos exige uma empresa com estrutura suficiente para que as pessoas possam mudar sem que o negócio mude com elas. Processos documentados, alçadas definidas, critérios de decisão que existem fora da memória de quem decidiu. Isso é o que um avaliador procura quando quer entender se está comprando uma empresa ou comprando a presença de alguém.
O que aparece no processo de due diligence com uma frequência que surpreende, são conflitos societários latentes sem acordos formalizados, ausência de critérios claros para distribuição de resultados e sucessão, contratos com clientes relevantes que dependem de relações pessoais não transferíveis, e uma estrutura financeira que funciona mas não está organizada de forma auditável.
Cada um desses elementos, isolado, pode parecer administrável. Mas o conjunto deles, visto de fora, sinaliza uma empresa que cresceu sem construir a estrutura que o crescimento exigia.
Não por acidente, as negociações que mais frequentemente travam ou que resultam em ajustes significativos de preço são exatamente as que chegam ao processo sem ter resolvido essas questões antes.
O mercado aplica um prêmio real a empresas bem governadas. Não como reconhecimento de mérito, mas como consequência direta da redução de risco percebido.
Cada elemento de governança implementado (um conselho ativo com membros independentes, processos de reporte estruturados, acordos societários claros, critérios de decisão formalizados) reduz uma incerteza que um avaliador precificaria negativamente. A soma dessas reduções produz o que o mercado chama de prêmio de governança: a diferença de valor entre duas empresas com resultados equivalentes, onde uma tem estrutura e a outra não.
Em transações de M&A e captações com fundos, empresas bem governadas tendem a negociar em condições melhores, com processos mais rápidos, menos contingências e maior capacidade de integração pós-transação. A governança também reduz o risco de destruição de valor depois que o deal fecha, o que importa tanto para quem vende quanto para quem compra.
A lógica é direta: o que o mercado não consegue verificar, ele não financia. O que ele consegue verificar com segurança, ele paga mais para ter.
Existem empresas que chegam a um ponto de estagnação depois de anos de crescimento consistente e quase sempre o diagnóstico é o mesmo quando olhadas com cuidado: a estrutura de decisão não acompanhou o tamanho que a operação atingiu.
Se tudo ainda passa pelo fundador, as alçadas nunca foram formalizadas, o reporte é informal e depende de quem pergunta, a estratégia até existe, mas só na cabeça de quem a concebeu.
A governança, se bem implementada, distribui autoridade sem perder coerência estratégica. Permite que a empresa tome decisões de qualidade mesmo quando o fundador não está na sala, e que novos líderes sejam desenvolvidos sem que o negócio dependa de um único ponto de falha. O resultado é uma imagem de credibilidade para o mercado, que entende o negócio como estrutura e não um conjunto de talentos individuais.
O momento de se preparar é agora
É natural tratar a governança como uma agenda para quando a empresa for maior, mais complexa, ou mais próxima de uma transação. O problema é que o momento em que isso passa a importar para o mercado costuma chegar antes do que se imagina.
Preparar um negócio para ser reconhecido pelo que realmente é, é um processo longo. É uma construção que exige consistência, e que precisa estar em andamento antes de qualquer processo começar.
A próxima pessoa a avaliar sua empresa vai chegar com critérios próprios. Sua empresa está preparada para ser lida por eles?
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por Agência de Marketing Digital
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